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Brasil

Antes das eleições, XP e “bancões” viram alvos de ataques nas redes; entenda

Investidores pressionam instituições financeiras pelo patrocínio a pesquisas de intenções de voto e agendas com pré-candidatos

por Juliano Passaro

14 de junho de 2022 12:10Atualizado em: 14 de junho de 2022 13:22
Antes das eleições, XP e “bancões” viram alvos de ataques nas redes; entenda

Faltando cerca de quatro meses para as eleições presidenciais, o cenário político no Brasil tem ficado cada vez mais agitado, com as novas pesquisas eleitorais publicadas semanalmente. Assim como ocorreu em 2018, as fake news já começaram a impactar a opinião pública. Nas redes sociais, o eleitorado ataca instituições por supostamente favorecer ou desfavorecer pré-candidatos. Desta vez, no entanto, as notícias têm arranhado a imagem de grandes instituições financeiras. Isso porque algumas dessas empresas, como XP, BTG Pactual e Bradesco apoiam pesquisas de intenções de votos e promovem encontros com os pré-candidatos, parte de uma agenda de sabatinas. No cenário polarizado,  esses movimentos estão sendo vistos por parte dos eleitores como um alinhamento político. Mas as instituições negam favorecimento a qualquer das partes.

Alguns clientes ameaçam em comentários nas redes sociais “retirar todo o dinheiro” de corretoras e dos bancos que estão marcando encontros com Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à reeleição pelo PT. São pessoas que acreditam que as instituições estariam “dando a vitória” ao partido, como interpretam os resultados das pesquisas  de intenções de votos de institutos apoiados por algumas dessas empresas. Outros chegam até a acusar  que “os bancões” querem Lula na presidência para “manipular o mercado de ações com informações privilegiadas do governo”. 

O doutor em Ciências Sociais e sócio-fundador da Methode Consultoria, Adriano Gomes, reitera que nenhuma instituição apoia um candidato, já que elas precisam ter uma boa relação com o governo federal - seja ele qual for. 

“A decisão das instituições financeiras é sempre de caráter racional. Elas apostam em todos os cavalos, porque o que ganhar, ela ganha também”, disse Gomes.  

“Agora, o que tem sido objeto de crítica foi rigorosamente o instituto que faz a pesquisa pela XP, o Ipespe, pois ele pertence ao Antonio Lavareda, que sempre foi defensor e assessor do Geraldo Alckmin, vice-presidente na chapa do Lula. Então me parece que, possivelmente, os potenciais ataques e até mesmo a suspensão da pesquisa XP/Ipespe foi em função dessa descoberta”, complementou o doutor em Ciências Sociais.

No dia 8 de junho a XP anunciou ter suspendido a divulgação do último resultado da pesquisa de intenções de voto à presidência, contratada junto ao Instituto Ipespe, que vinha sendo apresentada semanalmente. 

Em nota à imprensa, a XP negou que a pesquisa tenha sido cancelada por pressão dos eleitores de Bolsonaro. Confira a nota na íntegra: 

"A XP nega que a pesquisa será cancelada e ratifica que contrata diversos tipos de pesquisas de diferentes institutos com o intuito de auxiliar seus clientes a tomarem as melhores decisões sobre investimentos. A realização das pesquisas terá periodicidade mensal, com número de entrevistas ampliado em relação às realizadas nos levantamentos anteriores, oferecendo dessa maneira uma ferramenta ainda mais ampla para que os investidores compreendam o cenário eleitoral e seus impactos no mercado. As próximas pesquisas registradas no Tribunal Superior Eleitoral já estarão adequadas ao novo formato."

A XP virou alvo de eleitores desde quando o fundador e presidente executivo do Conselho Administrativo da corretora, Guilherme Benchimol, se encontrou com Lula, em abril deste ano. Em maio, porém, Benchimol foi ao Palácio do Planalto para ter um encontro com o atual chefe do Executivo, Jair Bolsonaro (PL)

Benchimol já havia dito que queria se encontrar com todos os candidatos à Presidência até o início das campanhas, e nunca declarou apoio a algum nome publicamente. 

Outra instituição que é alvo de críticas por apoiadores de Bolsonaro é o BTG Pactual. A instituição divulgou a pesquisa BTG/FSB, recentemente, que apontou Lula como vencedor das eleições com 46% das intenções de votos. O movimento de apoio à divulgação e financiamento de pesquisas, que é natural das instituições financeiras, foi criticado por parte do público pró-Bolsonaro no Twitter.  

Os eleitores de Bolsonaro também mencionam, em alguns tweets, que o dono do banco BTG Pactual, André Esteves, afirmou no ano passado que se as eleições presidenciais fossem naquela época (outubro de 2021), Lula (PT), então cotado à candidatura para Presidência, “venceria a disputa por W.O”. O executivo do BTG, entretanto, deixou claro, na época, que a vitória de Lula aconteceria, em sua opinião, por falta de opções fortes de candidatos políticos do "centrão", e não tanto por mérito de Lula. Ou seja, não houve apoio público e direto do presidente do BTG ao candidato. 

Outros bancos, como Bradesco e Itaú, já foram citados em ataques no Twitter, recentemente. Nenhum dos dois bancos, entretanto, apoiaram publicamente algum candidato à Presidência. Ao BP Money, o Banco Bradesco informou que não iria comentar o assunto. O portal também tentou contato com o BTG Pactual para saber o posicionamento da instituição sobre o assunto, mas não obteve retorno.  

Por que os bancos precisam ter uma boa relação com o Governo Federal? 

Os bancos, segundo o próprio Banco Central do Brasil, são instituições financeiras especializadas em intermediar o dinheiro entre poupadores e aqueles que precisam de empréstimos, além de custodiar esse montante. A principal função de um banco é prover serviços financeiros para a sociedade, como saques, empréstimos, investimentos, entre outros. Para isso, ele trabalha com o dinheiro dos próprios clientes e depende diretamente do governo para funcionar de forma “saudável”, como explica o coordenador do curso de Economia da FAAP, Paulo Dutra.

“O setor de compliance dos bancos trabalha para que os bancos não tenham preferências ideológicas e partidárias. No Brasil, o grande tomador de recursos da sociedade, por meio dos bancos, é o Governo Central. Ele precisa financiar seu déficit. Como o governo é o principal tomador desses créditos fornecidos pelos bancos (recursos que são dos clientes) e os bancos emprestam para o setor público, principalmente a União, se os bancos fazem oposição ao setor público, e a um governo específico, corre-se o risco de ter uma moratória”, explicou Dutra.

De acordo com o economista, esse risco do governo não pagar suas obrigações com os bancos poderia ocasionar uma crise financeira ou até levar um banco à falência, já que ele poderia simplesmente não pagar uma determinada instituição e, não pagando, ele levaria este banco à falência. 

“Os clientes pediriam esses recursos de volta e o banco não teria esses recursos para pagá-los e poderia realmente gerar uma crise financeira e econômica. É uma relação bem ‘simbiótica’. Os bancos precisam do setor governamental porque emprestam os recursos dos clientes, sem risco, para o setor público rolar sua dívida, e o setor público paga os bancos. Fica uma dependência mútua. Se um banco ou outro não realiza esse compromisso com o governo, pode sofrer sanções”, complementou Dutra.