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QuintoAndar, Loft e Facily: onda de demissões, com "Zoom e ceticismo", reflete mudança de humor

As três empresas de tecnologia desligaram 580 pessoas somente na última semana

Beatriz Pacheco

por Beatriz Pacheco

20 de abril de 2022 16:02Atualizado em: 31 de maio de 2022 9:21
QuintoAndar, Loft e Facily: onda de demissões, com "Zoom e ceticismo", reflete mudança de humor

QuintoAndar, Loft e Facily demitiram ao menos 580 profissionais desde a semana passada. As startups promoveram desligamentos em massa para se ajustar à mudança de humor do mercado das empresas de tecnologia, que vive sob o fantasma dos juros altos - a perspectiva no mercado é que a Selic bata os 13% ao ano até o fim de 2022. Ceticismo, demissões via Zoom e de pessoas com pouco tempo de casa marcaram esses processos recentes, segundo apurou o BP Money.

O tom macroeconômico mudou nos últimos meses. Globalmente, o FMI (Fundo Monetário Internacional) revisou para baixo as expectativas econômicas, para 3,6% no crescimento neste e no próximo ano, o que acaba afetando o ânimo para investimentos no Brasil. O setor de venture capital, particularmente, é combalido com o aumento dos riscos e do custo do dinheiro.

Dessa forma, nos últimos sete dias, o feed do LinkedIn foi inundado com postagens de pessoas demitidas das empresas, como a Quinto Andar, e comentários sobre um hiperdimensionamento das startups, que teriam dado um passo maior que a perna e agora precisam encolher. Com a escalada das tensões no mercado, existe também a possibilidade de aumento da pressão dos investidores para entrega de resultados melhores. 

O caso da QuintoAndar, que levantou US$ 420 milhões em duas rodadas de investimento no ano passado, deu início à onda de demissões. Depois de fazer cinco aquisições - quatro delas somente em 2021 -, a plataforma de compra, venda e locação de imóveis teria dispensado 4% da sua força de trabalho na última semana, segundo a própria empresa em resposta à matéria do jornal “O Estado de S.Paulo”, que apurou que o número chegaria a 20% dos 4 mil funcionários. O montante conforme as contas da startup é de 160 desligamentos. 

A empresa refuta as hipóteses levantadas recentemente de que estaria em crise. Em resposta à reportagem da BP Money, informou por meio de posicionamento que "frequentemente faz ajustes  internos buscando mais eficiência operacional”.

No caso do último processo, “repriorizamos algumas nossas iniciativas internas e alguns times e funções deixaram de existir, gerando uma redução de 4% da nossa equipe”, disse a startup no comunicado.

Ainda na tentativa de afastar os rumores, a QuintoAndar alega ter batido recordes históricos nos segmentos de locação e venda de imóveis. Enquanto o volume geral do mercado de crédito imobiliário caiu 20% em fevereiro na base anual, segundo a ABECIP (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança), a empresa teria crescido 30% nessa frente. Já o volume de contratos de aluguéis subiram 23% entre janeiro e março na comparação com outubro a dezembro de 2021. 

A questão é que o início do ano é um período em que o setor vive tipicamente um pico de demanda e transações. Sem mais informações sobre faturamento e margens da operação, a companhia começou a colher questionamentos sobre a sustentabilidade do negócio. Da parte da startup, a confirmação é apenas de revisão do ritmo e da estratégia de crescimento, algo necessário por conta de fatores externos e pelo cenário macroeconômico. 

Revisão do negócio atingiu as duas maiores startups do setor imobiliário

Algo semelhante aconteceu com a maior rival da QuintoAndar no mercado brasileiro, a Loft. A startup confirmou a demissão de 159 pessoas nesta semana. Neste caso, o processo estaria ligado à reorganizaçao da área de crédito imobiliário desde a conclusão do processo de integração da CrediHome, adquirida em setembro passado. 

A Loft afirmou em comunicado à imprensa que, hoje, a CrediHome by Loft conta com 653 funcionários. Em setembro passado, a área tinha 613 profissionais e, “portanto, o quadro hoje é 6% maior, mesmo após os desligamentos”. Desde que se tornou um unicórnio, a empresa já fez seis aquisições. 

Segundo fontes ouvidas pela reportagem do BP Money, a sobreposição de posições era algo nítido na rotina das equipes comercial e de análise de crédito, mais afetadas pela demissão em massa. “Competíamos internamente com o pessoal da CrediHome para decidir quem atenderia os clientes”, disse uma das pessoas ligadas à empresa. 

Há cerca de dois meses, o otimismo das lideranças da startup deu lugar ao ceticismo. Desde então os executivos passaram a admitir nas reuniões gerais com o quadro geral de funcionários que a operação passaria por revisões e enxugamento de custos. Antes, embora a área de crédito já estivesse grande, ninguém desconfiava da possibilidade, já que as contratações seguiam regularmente e o discurso era de expansão acelerada. 

Primeiro, veio o congelamento das vagas externas. Depois, a suspensão dos processos de remanejamento de pessoal. Entre as 159 pessoas demitidas na última segunda-feira (18), 75 integravam as equipes Loft Cred e Invest Mais, startup adquirida em 2020. A maioria trabalhava na análise de crédito para empresas com linhas de crédito do Itaú e Santander, conforme apurou o BP Money.

A qualidade dos contratos no segmento já vinha caindo muito nos últimos meses, contam os ex-funcionários na condição de anonimato. Segundo as fontes, muitas propostas comerciais envolviam empresas negativadas ou com faturamento muito baixo, o que prejudicava o trabalho da área.

Demissões da Loft aconteceram por Zoom 

A manhã de segunda-feira começou diferente para os 159 profissionais demitidos na Loft. Em dia de trabalho remoto, o chat da equipe da área de crédito no Zoom começou a bombar no primeiro horário, às 9h da manhã. Os funcionários da equipe não tinham mais acesso aos documentos e planilhas na rede corporativa.

Em seguida chegaram as informações sobre demissões de suas chefias. Na sequência, cada um dos 75 analistas foi convocado pelos coordenadores da área a uma conversa privada para condução de seu desligamento da empresa. 

“Um deles se emocionou. Disse que, se soubessem o que estava acontecendo, jamais teriam nos contratado”, disse uma das pessoas ouvidas pelo BP Money. Muitos dos funcionários haviam sido contratados há um ou dois meses, depois de aceitar as propostas para integrar a área de crédito da Loft. A maioria abriu mão de seus empregos em outras empresas.

As equipes da área já vinham sendo atualizadas há meses sobre os processos de integração com a Loft, o que envolveria - até o que era informado então - o nivelamento dos benefícios. Segundo uma das pessoas ouvidas, os funcionários da CrediHome teriam salários menores.
 
Este foi um dos critérios mais nítidos em todo o processo. As demissões da Loft começaram pelos cargos com salários mais altos, dos gestores, há mais de um mês, “quando a área já rodava bem sozinha”, contou uma das pessoas próximas à empresa. Ao cabo do processo, que acabou se tornando mais repentino que a equipe esperava, os profissionais de operação das áreas comercial e de crédito acabaram sendo atingidos.

“Pessoas que receberam prêmios por performance dez dias atrás foram demitidas nesse processo”, disse uma das fontes. Segundo a empresa em comunicado, “outros 52 [profissionais], de produto e tecnologia, foram transferidos para outras empresas do Grupo, como o próprio marketplace da Loft, a CredPago, Nomah e Vista". 

Onda de demissões chega como um tsunami na Facily

Nesta terça-feira (19), mais uma startup entrou na onda de demissões do mercado de startups. A Facily, uma plataforma de e-commerce social, demitiu cerca de 260 pessoas, segundo apurou o site "Startups". O número equivale a 30% do pessoal na operação hoje. Embora não confirme o número de desligamentos para “preservar as nossas pessoas “, segundo informou a empresa em nota à imprensa, uma planilha moderada com informações de contato dos profissionais demitidos pela empresa já soma 100 nomes até o fechamento desta reportagem - a maioria, da área de tecnologia. 

Questionada pelo BP Money sobre revisão das projeções de crescimento e sobre manter a estratégia de expansão no Brasil e para México e Colômbia, que havia comunicado no fim do ano passado, a Facily preferiu o silêncio.

Sobre o processo de demissões, a startup afirmou em nota que “busca constante evolução e eficiência para melhorar a experiência de todos que fazem parte e interagem com a empresa. Mudanças, inclusive em times, são necessárias para isso. Sempre vamos priorizar o que de fato faz a diferença no impulsionamento do nosso negócio”.

Em dezembro do ano passado, a startup levantou US$ 135 milhões em investimento, o que elevou seu valor de mercado para US$ 1 bilhão, o que fez dela mais unicórnio no ecossistema. 

Ao que tudo indica, QuintoAndar, Loft e Facily dão força a uma onda que deve afundar os ânimos no mercado de startups. Com o caminhar do mercado, para convencer seus investidores, as startups precisam seguir o humor da economia: com uma operação mais pé no chão e entrega de resultados.