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Negócios

Na Oaktree de Howard Marks, a aposta é o contrário do senso comum atual

Para gestores, baixas do mercado podem trazer boas opções de investimentos. Para proteger da volatilidade, carteiras estão 40% investidas em renda fixa

Beatriz Pacheco

por Beatriz Pacheco

12 de maio de 2022 15:17Atualizado em: 31 de maio de 2022 9:21
Na Oaktree de Howard Marks, a aposta é o contrário do senso comum atual
Divulgação

Investidores tendem a se comportar como cardumes, em conjunto e junto com as altas e baixas do mercado. Mas entre os tubarões do setor financeiro, a tendência é seguir contra a maré. É a eles, gestores como Warren Buffett e Howard Marks, fundador da Oaktree Capital Management, que todos os olhares se voltam em momentos de crise. Na prática, essas lendas do setor financeiro compartilham algumas vantagens que os colocam à frente do resto: com poderosas estruturas e equipes experientes, baseiam sua visão de investimentos em uma rigorosa política de gestão de riscos.

Mesmo com um portfólio relativamente conservador, não se trata de fugir dos riscos - muito pelo contrário - mas de mantê-los sob controle. Tanto que, desde o ano passado - e mesmo muito antes das sucessivas baixas dos mercados globais -, a gestora de Marks, uma das maiores em ativos de risco e de crédito no mundo, vem fazendo significativas mudanças no seu portfólio de investimentos.

A aposta, claro, segue no sentido contrário do senso comum: atenção a oportunidades para expor a carteira a ativos de renda variável com boas perspectivas de retorno com as janelas que surgirão na crise. 

É preciso lembrar que os fundos da Oaktree fazem uma alocação diversificada do capital, que varia por portfólio. A gestora está posicionada hoje com 60% de exposição a ativos de renda variável e 40% investida em renda fixa. A razão por trás desse movimento foi reduzir o duration, prazo médio ponderado de um título pré-fixado para recuperar o investimento, que atualmente está em 1,7.

A convite da Gama Investimentos, gestora do grupo HMC Itajubá, em evento fechado para investidores, os diretores David Rosenberg e Wayne Dahl, gestores de portfólio da Oaktree, explicaram os motivos que levaram à revisão da sua estratégia. O primeiro e mais importante foi seguir a premissa de Marks, famosa por ser seu mantra no mercado financeiro: “você não pode prever, mas pode se preparar”.

Por isso os gestores de portfólio da empresa norte-americana priorizaram, no primeiro momento, diminuir a exposição aos títulos conversíveis, aqueles que podem ser trocados por ações ordinárias na empresa emissora ou em dinheiro. Por serem sensíveis ao mercado de ações e, em função disso, aumentarem a volatilidade do portfólio, os ativos eram menos estratégicos. “Não fizemos isso a ponto de sacrificar nosso retorno, no entanto”, enfatizou Dahl. O rendimento da Oaktree em dólar é de 8,7%, segundo os executivos.

Já Rosenberg explicou que uma simples transição de títulos de crédito para empréstimos sacrificaria demais o retorno das carteiras. “Entendemos que tínhamos diversas estratégias alternativas como o investimento em títulos de dívida do mercado imobiliário, por meio do crédito estruturado, ou os CLOs (um tipo de obrigação de dívida colateralizada)”, disse. 

A Oaktree alocou boa parte de seu capital a empréstimos e ativos de renda variável até o fim de 2021, mas, com a mudança de cenário em 2022, a ordem mudou para a posição de venda. Os gestores explicaram que a equipe já estava atenta à crise mesmo quando, no ano passado, os bancos centrais ainda tratavam a situação inflacionária como uma questão transitória. “Com o aumento de custos nas empresas, tínhamos sinais de que esse cenário levaria mais tempo para se resolver”, contou Rosenberg.

Com essas informações, a gestora entendeu que era preciso reagir quando o mercado investidor ainda estava em grande parte voltado ao equity, de olho na retomada das atividades e como ela alavancaria o mercado. Alocada em ações de companhias expostas a esse cenário, a Oaktree vendeu seus ativos num momento de alta procura 

“Tínhamos títulos de crédito de empresas com o mesmo retorno mas com uma demanda mais estável, como no setor alimentar”, explicou o diretor. A conclusão foi quase lógica para a Oaktree: reduzir a posição em ativos de dívida que então eram bem disputados, como em companhias aéreas. Os gestores entenderam que os setores que ainda enfrentariam instabilidade, por isso as ações em segmentos de consumo básico seriam mais previsíveis, além de estarem mais baratas. 

Foi por isso que, no começo de 2022, a Oaktree já estava na rota dos ativos mais tradicionais e “tediosos”, como Rosenberg classificou os títulos de dívidas das empresas que apresentavam um horizonte mais estável e não tão alavancado. “Entramos o ano com um bom fluxo de caixa e cortando gastos, por isso estávamos em uma posição confortável quando começaram as conversas sobre recessão, e hoje estamos atrás de oportunidades”.

Dahl lembra que, pelo porte da gestora, a Oaktree tem a opção de comprar ativos mais protegidos da inflação, que vêm de segmentos do mercado imobiliário e de títulos de empresas com demandas estáveis, caso do setor de saúde, serviços públicos e telecomunicações. “As classes de ativos de hospitalidade são um exemplo, já que esses serviços têm margem para responder à inflação pelo reajuste de valores numa base mais estável”, disse. 

Oaktree se volta ainda mais para investimentos no mercado norte-americano e deve manter exposição em renda variável

Para 2022, a gestora norte-americana deve se voltar mais ao mercado dos Estados Unidos, depois de ter passado o último ano favorecendo ativos europeus. À época, a visão dos diretores era que os juros subiriam primeiro no mercado norte-americano, onde o banco central costuma adotar políticas mais agressivas. Com a eclosão do conflito na Ucrânia, em fevereiro, os ventos no mercado mudaram

“Estamos esperando um declínio em quase todas as economias nos próximos anos, mas as da Europa estão em uma posição mais sensível, considerando sua dependência das exportações da Rússia”, disse Rosenberg. Para os ativos europeus, a estratégia da Oaktree é investir em setores menos sensíveis ao aumento de preço dos gás, como o setor de saúde e companhias que não são grandes consumidoras de energia. 

A ideia de manter o portfólio ainda exposto a ativos de renda variável, contrária ao consenso hoje - quando investidores estão em pânico com as quedas dos mercados - reforça a visão de Marks de seguir contra a massa. Até mesmo Buffett, durante a convenção anual da Berkshire Hathaway em abril, comemorou a evasão de “apostadores”, ao se referir à estratégia especulativa de investidores que inundaram o setor financeiro nos EUA nos últimos anos. 
 
“Estamos só no começo do ciclo, e temos a nosso favor um duration baixo”, reforçou Rosenberg, gerente de portfólio da Oaktree Capital Management. Ele explica que a equipe da gestora já persegue a compra dos títulos de portadores que, com o aumento do juros e sob um prazo para retorno alto, serão forçados a vender seus ativos. “Buscamos essas janelas de oportunidades. Quando surgirem, estaremos lá para dizer: ‘nós compramos, só não por um preço que você vai gostar’”.