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Negócios

BRF (BRFS3): dependência do Brasil aumenta distância para concorrentes

Com diversificação da presença, desafios inflacionários não devem ter o mesmo impacto para JBS e Marfrig. Mesmo assim, dona da Sadia tem chances de se recuperar neste ano

Beatriz Pacheco

por Beatriz Pacheco

10 de maio de 2022 8:30Atualizado em: 31 de maio de 2022 9:21
BRF (BRFS3): dependência do Brasil aumenta distância para concorrentes

A alta dependência da BRF (BRFS3) do mercado brasileiro, que responde por cerca de 50% do faturamento, veio a um custo alto para a empresa. Altíssimo, na verdade: de R$ 828 milhões em perdas com os ajustes na cadeia produtiva e pelo aumento de custos na produção no primeiro trimestre do ano. A receita pode ter subido 13,7% na base anual, para R$ 12 bilhões, levemente (2,6%) acima do consenso de mercado, mas o avanço veio a um preço bem elevado. A decepção assolou os ânimos na última linha: um prejuízo líquido de R$ 1,58 bilhão contra os R$ 50 milhões de lucro projetado por analistas e os R$ 22 milhões de lucro apurado no mesmo período do ano passado. 

É um mau sinal quando uma das maiores empresas do setor tem um tombo que leva analistas a preferirem apagar da memória o que viram, como a equipe do Itaú BBA, que chamou o início de ano da BRF como “um trimestre para ser esquecido”. No BTG Pactual, o resultado da companhia foi lido como “uma volta ao passado”. Mas a verdade é que as mazelas que afetaram tão fortemente a BRF não devem ter o mesmo peso sobre sua maior concorrente, a JBS, assim como não teve para a Marfrig, que detém 33,27% de participação das ações da dona da Perdigão e da Sadia.

Antes, é preciso entender de onde vieram os golpes que derrubaram a BRF. Primeiro, o impacto em hedge de commodities chegou a R$ 406 milhões no período, o que corresponde a 43% do Ebitda pro forma, isto é, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização excluindo os efeitos que levaram à revisão das estratégias. Os outros R$ 422 milhões em perda ao caixa vieram das medidas para ajustes na cadeia. Entre janeiro e março, 54% desse valor correspondem à pressão de custos sobre a operação.

Adriano Castro, analista do setor de alimentos da Genial Investimentos, aponta que a alta está conectada principalmente ao aumento de preços dos grãos “milho e soja, que contam por mais de 70% dos custos de produção da companhia e estão em altas históricas”. Assim, viu-se um despencar de 90,2% do Ebitda da BRF em um ano, que fechou o período com a margem em 1%. “A alta do combustível atrapalhou no que diz respeito aos custos de logística e os impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia também agregaram para o cenário desafiador de inflação de alimentos”, reportou Castro.

Além disso, o ambiente de consumo fraco no Brasil, causado pela alta inflacionária e queda da renda, obrigou a BRF a promover descontos para conseguir manter os volumes de vendas. A companhia recobrou ainda a pressão do cenário global sobre os preços, ao que atribui a culpa pela performance de vendas no varejo abaixo do planejado. Esse efeito dominó no mercado acabou “sobrecarregando estoques e toda a cadeia produtiva com impactos em custos logísticos e perdas”, reportou no balanço.

Pela lógica, Marfrig e JBS (que divulgará seus resultados do último trimestre no dia 11 de maio) teriam um começo de ano igualmente impactado. Mas não - ou, ao menos, não no mesmo nível do da BRF. Antes, vale lembrar que a dona das marcas Montana e Bassi já apresentou os números do seu primeiro trimestre, que foram bem recebidos pelo mercado. A sua divisão na América do Norte foi destaque no balanço, com uma sólida performance, como destacado pela equipe do Itaú BBA. A operação regional alcançou margem Ebitda de 15%, alta de 3 pontos percentuais na base anual, enquanto na América do Sul a margem ficou em 6,4%. 

Com todos os resultados em linha e por vezes superior às expectativas, como o Ebitda de R$ 2,7 bilhões (11% acima do projetado), a Marfrig só apanhou em uma frente: lucro líquido. Neste quesito, a empresa caiu 60% na base anual, associado ao resultado financeiro negativo de R$ 1 bilhão que se deve justamente à má performance das ações da BRF, da qual a companhia, para manter sua fatia, precisou acompanhar o follow-on, que representou a necessidade de um novo investimento de R$ 1,8 bilhão em fevereiro deste ano. 

Já o caso da JBS está mais distante da BRF, o que acalma investidores do setor. Queridinha hoje nesse mercado, analistas do Itaú BBA associam a resiliência de seus resultados e do valor dos papéis à diversificação regional da operação e a forte conversão de Ebitda em fluxo de caixa para o acionista. A empresa dona da Swift e da Seara também tem alocado capital em recompras, dividendos e aquisições ao mesmo tempo que tem conseguido desalavancar suas operações, indica o relatório.

Só que pesa também para o outro lado o fato de a BRF ter se apoiado em uma estratégia baseada em produtos de maior valor agregado, que virou um tiro no pé com a rápida escalada do cenário de inflação. Assim, a multinacional foi se afastando cada vez mais do arrazoado, mesmo ante os desafios do setor. 

Na teleconferência de apresentação de resultados, o CEO da companhia, Lorival Luz, reconheceu o problema como um “mix de produtos que não está perfeitamente alinhado à demanda”, o que levou ao acúmulo dos estoques e redução no prazo de validade dos produtos mais rapidamente. “Faremos adequações para o negócio rodar mais limpo”, prometeu o executivo. 

Perspectivas para a BRF não são tão ruins, mas empresa precisa estar atenta ao avanço da JBS no Oriente Médio

Os números divulgados pela dona da Sadia e da Perdigão afetarão negativamente o preço da ação no curto prazo. A BRF chegou a cair 12% após o anúncio dos resultados do primeiro trimestre e, na segunda-feira seguinte (9), os papéis romperam a linha dos R$ 12 durante o pregão - mas fecharam o dia voltando ao patamar, em R$ 12,32. É a mínima histórica desde a fusão das marcas para criar a companhia. Em 2009, quando a união foi anunciada, a empresa alcançou um valor de mercado de R$ 19 bilhões. Hoje, estaria em R$ 13 bilhões, queda de 32%.

Chamou a atenção de analistas que, mesmo depois de levantar R$ 5,4 bilhões no follow-on no começo do ano, o índice de alavancagem desceu de 2,96 vezes no último trimestre de 2021 para 2,83 vezes no fim de março deste ano. O balanço mostra que, em dois meses, a companhia consumiu R$ 3,7 bilhões do caixa, enquanto a dívida líquida foi efetivamente reduzida em R$ 4,7 milhões. Não se viu a melhora do caixa como se esperava, já que o principal destino do dinheiro seria na melhoria estrutural da alavancagem financeira. 

Outro ponto no radar de especialistas é a forte investida da JBS no mercado halal, isto é, de produtos que seguem os preceitos do islamismo. A concorrente, maior produtora de proteína animal do mundo, está avançando agressivamente na região. No último mês, a dona da Seara adquiriu duas fábricas no Oriente Médio, uma na Arábia Saudita e a outra nos Emirados Árabes, para consolidar sua operação nesse mercado. 

O mercado halal foi o único mercado onde as vendas da BRF cresceram no primeiro trimestre, com um salto de 21% na base anual. Além de tropeçar nos desafios do Brasil, na Ásia, os números caíram 16% contra o mesmo período do ano passado. 

Mas nem tudo está perdido para a BRF. A empresa já anunciou um pacote de medidas que será implementado ao longo do mês de maio por Luz, o que inclui cortes de custos operacionais. O conselho, hoje liderado por Marcos Molina, dono da Marfrig, vem tomando pé do que acontece na BRF e trata a recuperação da rentabilidade como algo prioritário. 

O mercado parece acreditar na nova gestão, por isso os analistas, apesar de cortarem o preço-alvo das ações, mantiveram valores acima dos patamares em que os papéis vêm sendo negociados hoje. O BTG desceu de R$ 25 para R$ 17, enquanto o Itaú BBA foi mais generoso: R$ 24. Castro cortou mais na carne, para R$ 15 por ação no momento. 

O analista da Genial Investimentos ponderou que, apesar da persistência de um cenário bastante desafiador para a BRF no curto prazo, a perspectiva de recuperação para a BRF (BRFS3) não está longe. Mais precisamente, pode chegar ao fim deste ano, segundo o especialista. Isso porque “a produção de milho em 2022 deve vir boa no Brasil, além de uma possível melhora no ambiente macroeconômico e de consumo no País”, apontou.