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Mercado

Inflação dos alimentos é grande vilã dos brasileiros em 2022

Em um contexto de pandemia e guerra na Ucrânia, muitos brasileiros precisaram mudar seus hábitos de consumo e milhões já passam fome

por Alexandre Puga

1 de julho de 2022 19:30Atualizado em: 1 de julho de 2022 18:22
Inflação dos alimentos é grande vilã dos brasileiros em 2022

A inflação tem se tornado a grande vilã na vida dos brasileiros em 2022. Em maio, a alta dos preços já acumula crescimento de 11,73% nos últimos 12 meses, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Com o crescimento desenfreado, muitos brasileiros tiveram que mudar seus hábitos de consumo, como economizar mais energia e comprar menos itens na ida ao supermercado. 

Segundo dados da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste), o consumo de mais de 90% dos brasileiros mudaram seus hábitos de consumo. Mais de 40% dos entrevistados declaram que têm dificuldades em pagar as contas de luz e de gás. Em relação à água, 41% já fazem racionamento, tomando menos banhos ou banhos mais curtos para diminuir os custos.

Além da água e energia, muitos brasileiros precisaram trocar ou retirar itens da sua cesta no supermercado. Na cidade de São Paulo, de acordo um levantamento feito pelo Núcleo de Inteligência e Pesquisas do Procon-SP (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor), o preço médio da cesta básica já ultrapassou o valor do salário mínimo em maio, chegando a R$ 1.226,12. O salário mínimo é de R$ 1.212. 

A alta nos preços dos alimentos tem se demonstrado cada vez mais perigosa. Com muitos brasileiros desempregados e com um poder de compra reduzido principalmente pelas sequelas da pandemia de covid-19, a fome voltou a ser tema nos noticiários. 

De acordo com pesquisa realizada pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), o Brasil soma cerca de 33,1 milhões de pessoas sem ter o que comer diariamente, quase o dobro do estimado em 2020. Em números absolutos, são 14 milhões de pessoas a mais passando fome no país. 

Além da inflação causada pela pandemia, a guerra na Ucrânia também tem afetado os preços dos alimentos. Mas por que?

O que explica o grande aumento nos itens do supermercado? 

Durante a pandemia de covid-19, o real foi uma das moedas que mais se desvalorizaram frente ao dólar. A situação fiscal frágil e os embates na área política são um dos motivos por trás da desvalorização da moeda. Além disso, durante dois anos, o Brasil precisou fechar seus comércios não essenciais, assim como suas indústrias. 

Com o enfraquecimento do real, investidores optaram por aumentar suas exportações, aproveitando o valor do dólar. Com isso, houve uma fuga de commodities, como trigo e soja, do País, contribuindo assim para a inflação de alimentos. 

Além do aumento de exportação, ocorreu um evento mundial que impactou o preço de todas as commodities: a Guerra na Ucrânia, iniciada em 20 de fevereiro. Com a invasão russa no território ucraniano, o preço do milho, trigo, petróleo dispararam, pois tanto Rússia quanto Ucrânia são países relevantes na produção de grãos como soja, milho e trigo. Além disso, a economia russa é bastante ligada ao petróleo, gás natural e minerais como o alumínio.

De acordo com Maria Levorin, diretora de distribuição e suitability da gestora Multiplica Capital, o aumento do preço das commodities por conta desses eventos colaboraram para a disparada no preço dos alimentos.

“O aumento do preço do combustível impactou significativamente os alimentos, por conta do aumento do custo do transporte e dos contêineres. O aumento dos derivados do petróleo também influenciaram algumas commodities, como no caso do etanol que fez com que o milho também subisse de preço”, disse.

Até os alimentos “de feira”, que são mais acessíveis, acabaram sendo afetados por esses eventos. Em abril, a cenoura acumulava aumento de 195% nos últimos 12 meses segundo o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15), calculado pelo IBGE. O tomate, segundo o mesmo índice, acumulou alta de 117,48% até abril de 2022. 

Abobrinha (86,83%), melão (63,26%), repolho (59,38%), melancia (52,64%), pimentão (50,18%), Morango (46,79%), alface (46,22%), mamão (40,33%) e batata-inglesa (38,68%) são outros alimentos com avanços expressivos no mesmo período.

Além da pandemia e da guerra na Ucrânia, o clima também foi responsável pelo aumento dos produtos hortifrutigranjeiros, como explicou Adriano Gomes, consultor da Méthode Consultoria e Professor da ESPM. 

“O aumento bem forte nos preços de frutas, verduras e legumes se dá por uma combinação de fatores: muita chuva no início do ano, impactando de forma negativa para as culturas de hortifrutis. Mas o fator climático deixará de ser um motivo de alta nos preços agora, com a chegada de um período de estiagem", afirmou. 

“Todavia, contribuem de forma a manter a escalada em trajetória de alta, o elevado preço dos combustíveis, transformando o frete em um fator de pressão forte, em comunhão com preços mais altos de adubos, fertilizantes e defensivos”, completou. 

Em um contexto de disparada do preço dos alimentos, o cardápio do brasileiro mudou. A partir da análise de 35 milhões de notas fiscais em todo o Brasil, a empresa de inteligência de mercado Horus verificou que, em abril, o leite esteve presente em 14,2% dos carrinhos. No mesmo período do ano anterior, essa incidência era 1,7 ponto percentual maior, de 15,9%. 

O cenário é semelhante para o óleo e para a carne bovina: a presença do primeiro nos carrinhos de supermercado passou de 7,1% para 6% em um ano; da segunda, de 5,9% para 5,3%. 

“A migração de alimentos pode ocorrer, principalmente nas proteínas, que são produtos que têm maior custo para os brasileiros. Por exemplo, consumidores trocam a carne de boi por frango. O preço das proteínas foi impactado principalmente pela alta nas commodities”, explicou Maria Levorin. 

Segundo pesquisa realizada pela FSB Pesquisas a pedido do banco BTG Pactual, 55% dos entrevistados afirmaram ter deixado de consumir carne vermelha devido à inflação.

Que medidas podem ser tomadas para controlar a inflação?

Com milhões de pessoas tendo que se adequar não só com a disparada dos alimentos, mas também com os preços dos combustíveis, por exemplo, é natural que pensemos em soluções para combater a inflação, que já acumula alta 11,73% em 12 meses encerrados em maio, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

O Banco Central, como forma de enfrentamento à inflação generalizada, tem aumentado os juros constantemente. Em 15 de junho, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central anunciou  um aumento de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros. Com a decisão, a taxa Selic subiu de 12,75% para 13,25% ao ano.  

“O aumento dos juros pode auxiliar na redução da inflação, mas não será suficiente para contê-la. O ideal seria uma estabilização geopolítica e do fluxo comercial com a China, além da valorização do real”, ressaltou Maria Levorin.

Adriano Gomes afirmou que o congelamento dos preços e a quebra do teto de gastos não são medidas eficazes contra a inflação. 

“Não se corrige com tabelamento de preços (vide Argentina), pois redunda em desabastecimento profundo e criação de mercados paralelos; tampouco via aumento do gasto público com rompimento de teto de gastos que é, na verdade, a origem da inflação”, afirmou.

“Infelizmente, os últimos números apontam para uma resistência dos preços em terminar uma trajetória de alta, colocando mais ponto de interrogação que clareza no mercado”, afirmou com ressalvas Adriano Gomes.