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Mercado

A Weg (WEGE3) deixou de ser o “reloginho” dos resultados constantes?

Os papéis da empresa acumulam baixa de cerca de 17% em 2022, enquanto o Ibovespa fica praticamente no zero a zero

por Redação BP Money

24 de maio de 2022 18:00Atualizado em: 31 de maio de 2022 9:21
A Weg (WEGE3) deixou de ser o “reloginho” dos resultados constantes?

Outrora queridinhas dos investidores pessoas físicas, as ações da Weg (WEGE3) têm passado por turbulência nos últimos meses. Os papéis da empresa acumulam uma baixa de cerca de 17% em 2022, enquanto o Ibovespa, que mostra o desempenho médio da Bolsa brasileira, fica praticamente no zero a zero.

A discrepância entre as comparações temporais diz respeito à leve desaceleração na entrega de resultados pela Weg, além da perspectiva de arrefecimento da rentabilidade. 

A alta demanda dos investidores não institucionais pelas ações da empresa no mercado diz respeito a quase um tratado de confiança. Por muito tempo, a Weg foi tratada como um "reloginho", apresentando consistente crescimento.

Mas tudo tem um preço, inclusive o crescimento, a reação é amplamente negativa – mas necessariamente proporcional ao histórico recente. 

Nos últimos cinco anos, porém, os ganhos ainda superam 250%. De qualquer forma, o investidor deve ponderar as perspectivas positivas e riscos a partir do contexto vigente, não perpetuando o passado como garantia de geração de valor ininterrupta. 

Modelo de negócio

A Weg se encaixa no quadro de empresas que estão próximas do dia a dia das pessoas, embora poucas saibam exatamente o que a companhia faz – até mesmo os investidores. 

A companhia, sediada em Jaraguá do Sul (SC), tem 61 anos de história. Ela tem alcance global em equipamentos eletroeletrônicos, operando sobretudo no setor de bens de capital.

As soluções da Weg giram em torno de máquinas elétricas, automação e tintas. Os setores que usufruem dos produtos da empresa incluem infraestrutura, siderurgia, papel e celulose, petróleo e gás, mineração, entre outros.

A empresa acumula filiais em 36 países, enquanto as fábricas próprias estão em 12 países diferentes. A operação ainda conta com a exportação de seus produtos para mais de 130 países. 

No primeiro trimestre deste ano, 49,1% de toda a ROL (receita operacional líquida) foi oriunda do exterior, e 50,9% do Brasil. A operação estrangeira já tem boa parte de sua produção fora das fronteiras do país, resultado da internacionalização iniciada na década de 1970. 

As atividades da Weg são concentrados em quatro frentes, com a devida parcela da receita em percentuais atualizados:

  • Equipamentos eletroeletrônicos industriais (46,7%);

Fabricação de motores elétricos, equipamentos e serviços de automação industrial e  serviços de manutenção. Fazem parte do ciclo curto da empresa.

  • Geração, transmissão e distribuição de energia (GTD) (40,5%);

As atividades contam com produção de geradores elétricos para usinas hidráulicas e térmicas (biomassa), turbinas hidráulicas (PCH e CGH), aerogeradores, transformadores, subestações, painéis de controle e serviços de integração de sistemas. 

Incluem o chamado ciclo longo de operação da Weg e concentram os principais investimentos na atualidade, tendo ganhado participação na receita da empresa, que tem apostado em renováveis. 

  • Motores comerciais e appliance (8,5%);

Criação de motores monofásicos para bens de consumo duráveis, que sofrem com a interrupção da cadeia de suprimentos em função da pandemia, guerra no Leste Europeu e lockdown na China.

  • Tintas e vernizes (4,3%)

Aqui, a companhia catarinense atua em aplicações industriais, incluindo tintas líquidas e em pó, além dos vernizes eletro-isolantes. O crescimento no Brasil tem sido mais notável que no exterior. 

Como o modelo de negócio mostra, a empresa possui ampla expertise nas áreas em que atua e está posicionada para surfar a mudança na matriz energética global. 

A alta exposição ao dólar é um porto seguro em momentos de turbulência, mas também um risco a ser monitorado pela alta parcela do faturamento suscetível à variação do câmbio. 

O porquê da disparada histórica

O ditado “devagar e sempre” até poderia se encaixar para a Weg – afinal, a empresa tem mais de 60 anos de vida, sendo que é listada há mais de meio século. Mas em diversas janelas temporais, a entrega de resultados pela empresa impressiona.

Nos últimos 10 anos, a companhia conseguiu expandir sua receita líquida em 366%, saindo de R$ 5,43 bilhões em 2012 para R$ 25,31 bilhões, em bases de 12 meses. 


Fonte: TradeMap

Sendo uma empresa da indústria intensiva em capital, a uma forte mensuração da geração de valor da empresa é seu ROIC (Retorno sobre Capital Investido), que ainda segue maior que seu custo de capital – apesar da guinada na taxa de juros no Brasil e nos Estados Unidos.

De acordo com dados da Bloomberg, a relação entre o ROIC e o WACC (custo médio ponderado de capital, em inglês) está em 1,31 vez, estando entre as empresas brasileiras que mais criam valor aos acionistas.

Esse forte desempenho histórico é a razão primordial para que as ações da empresa tenham se tornado um óbvio alvo de compra por parte dos investidores que chegaram à Bolsa nos últimos anos. 

Desde maio de 2012, na janela temporal de dez anos, o que já pode ser considerado médio para longo prazo, as ações da companhia retornaram aos investidores quase 1.000%. No mesmo período, o Ibovespa tem retorno de aproximadamente 96%, ambas em números nominais. 


Fonte: Status Invest

A confiança na empresa se justifica pela entrega de diversos projetos e novas operações, como ampliação das operações na Ásia e ganho de participação na infraestrutura e construção civil no Brasil.

O aspecto low profile da gestão da empresa mostra que o foco está na entrega de resultados, expansão e aprimoramento das novas linhas de negócio. É incomum que executivos da Weg apareçam dizendo o que estão fazendo antes de mostrar efetivamente o atingimento das metas. 

O mercado de capitais, porém, é formado por narrativas. Uma delas se refere à dicotomia entre o investimento em valor e o investimento em crescimento – “caixinhas” as quais a Weg se enquadra. 

A Weg nunca foi consenso entre os investidores, sobretudo em momentos desafiadores com o vigente. 

O que vem pela frente

Entre janeiro e março deste ano, a Weg mostrou que deve ter seus resultados positivos ao longo de 2022, praticamente “garantindo” um bom exercício, mas fez ressalvas aos investidores.

O ROIC da fabricante atingiu um forte patamar no segundo trimestre do ano passado e deve apresentar uma tendência de arrefecimento ao longo dos próximos meses.

Segundo André Rodrigues, CFO da Weg, "o retorno de capital é o indicador que o mercado sempre demandou e nosso norte de resultados". Caso o indicador permaneça acima de 10%, a diretoria recebe bônus e, mesmo assim, de acordo com a visão da própria companhia, os próximos trimestres serão de regressão à média. 

No primeiro trimestre deste ano, o indicador que mostra uma aproximação da geração de valor da Weg foi de 29,7%, sendo que a média é de 11,93%, de acordo com dados compilados pelo Status Invest. 

Nos próximos meses, as margens deverão ser fortemente pressionadas pelos consistentes custos relacionados a matérias-primas, ao passo que a parcela do faturamento ligada ao faturamento fora do país fica suscetível à volatilidade do dólar. Vale ressaltar que o Brasil tem o maior juro real do mundo. 

A empresa não apresenta guidance oficial ao mercado, portanto as projeções entre analistas ficam dúbias. A direção da empresa, contudo, tem o perfil de manter os pés no chão e não se deslumbrar com o bom desempenho operacional ao longo dos últimos trimestres.

Vale a pena investir na Weg?

Não há qualquer empresa comparável ao modelo de negócio da Weg dentre as listadas no Brasil. Dentro da indústria, há de ser mencionada a Shulz (SHUL4), mas que não possui a envergadura das operações da Weg.

O cenário não indica uma deterioração acintosa da qualidade da empresa, mas sim a antecipação dos potenciais de resultados de novas linhas de negócio nos preços. Já foi pior, mas a companhia ainda negocia a 29 vezes seu lucro dos últimos 12 meses. 

Com crescimento anual composto forte há anos – se não, décadas – a empresa catarinense acaba pagando o preço por mostrar que há cenários em que pode não crescer conforme a expectativa majoritária.

O resultado do primeiro trimestre e o viés apresentado para o restante do ano demonstram que a fabricante venderá caro uma desaceleração ao longo do ano, como sempre fez. 

Todavia, o aspecto inflacionário pressiona a Weg, que deve ter desempenho em linha com o restante do mercado, mas abaixo das empresas beneficiadas diretamente pela sustentação dos preços das commodities – calcanhar de aquiles da fabricante até o fim do ano.