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BP Entrevista

BP Entrevista: Raphael Maia, sócio-fundador e gestor da Organon Capital

Conheça a história do gestor e da sua empresa, que teve o fundo entre os mais rentáveis de 2021

Gabriel Rios

por Gabriel Rios

3 de fevereiro de 2022 17:00Atualizado em: 31 de maio de 2022 9:32
BP Entrevista: Raphael Maia, sócio-fundador e gestor da Organon Capital

Natural de Salvador, capital da Bahia, Raphael Maia bateu um papo com a BP Money e contou sua trajetória no mercado financeiro, como quando começou a investir e o que o motivou a tomar a decisão de seguir no mundo dos investimentos. “Minha avó sempre me dava de presente alguns dólares todo natal e aniversário. Fui juntando durante cinco a dez anos, e quando eu tinha 14 anos, em 2002, já tinha US$ 2.500. Coincidência foi numa época que o BNDES fez uma oferta de ações da Vale com desconto, então peguei o valor e comprei em ações da Vale pelo nome de minha mãe”, relembrou. 

Sócio-fundador e gestor da Organon Capital, Maia também falou sobre a gestora e como lidou com as dificuldades encontradas ao longo do caminho. Após uma tentativa frustrada, conseguiu apresentar todos os requisitos solicitados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e montou seu negócio no início de 2020. “Ao longo desses últimos dois anos fizemos um trabalho muito bom deixando a empresa bem redonda.”

Apesar de não ter sido um 2021 fácil para ninguém com o Ibovespa perdendo cerca de 12% no ano, o fundo da gestora, o Organon FIC FIA, rendeu 54% e se tornou o melhor entre os fundos de investimento mais rentáveis, de acordo com informações da plataforma Morningstar. A empresa também foi destaque em matéria do Valor Investe, quando rendeu 51,5% nos nove primeiros meses do último ano. 

Confira a entrevista completa abaixo:

Para começar, gostaria que você contasse um pouco sobre a sua infância. O Raphael criança já demonstrava algum tipo de gosto pelo mercado financeiro?
Sou baiano, morei em Salvador até os 17 anos, em 2005. Meus primeiros contatos com Bolsa foi até um pouco por acaso. Minha avó sempre me dava de presente alguns dólares todo natal e aniversário. Fui juntando durante cinco a dez anos, e quando eu tinha 14 anos, em 2002, já tinha US$ 2.500. Foi então que um tio meu questionou onde eu guardava o dinheiro e me aconselhou a aplicar em algo. Coincidência foi numa época que o BNDES fez uma oferta de ações da Vale com desconto, então peguei o valor e comprei em ações da Vale pelo nome de minha mãe – era menor de idade e não podia – e dei muita sorte. Não fiz análise nenhuma, dei uma pesquisada e comprei. Na época valia uns R$ 5 mil e as ações quase dobraram de preço naquela época. Foi então que comecei a comprar algumas ações e, na realidade, nem foram das melhores para a época. Foi aí que comecei a pensar em vir para São Paulo, fazer faculdade na Getúlio Vargas e, por acaso, fui tomando gosto. 

Ainda sem entrarmos nessa parte mais profissional, quando você acha que essa "chavinha" virou e te fez se direcionar totalmente para o mercado financeiro?
Lembro que estudava no Colégio Anchieta e, como não havia celular, ia sempre no computador da biblioteca para dar uma olhada no que tinha subido e no que tinha caído. Ia acompanhando e lendo o que estava começando. Em 2004 tomei a decisão de ir embora para São Paulo para estudar. Outro evento muito importante que aconteceu para mim foi o Folha Investe e comecei a participar. Resolvi colocar tudo que tinha em uma ação que desse para subir muito. Na época estavam acontecendo a consolidação de várias telefônicas na Bahia e no Nordeste, e eu comprei duas: uma do Nordeste e outra Tele Centro-Oeste. Dito e feito. As duas subiram muito e eu fiquei no 1º lugar do Nordeste. Fui convidado para vir conhecer a Bolsa e ganhar o prêmio. No evento conheci um outro baiano que é o José Carlos Borja, diretor do Banco Fator. Ficamos conversando e ele me ofereceu um estágio. Entrei na GV e, após um ano, retornei o contato e me dispus. Ele me levou para conhecer e já fui fazendo uma entrevista de surpresa. A partir daí fui tomando gosto por ações e teses a longo prazo, que faz parte do DNA da Organon. 

Depois de finalmente decidir seguir nesse meio, como foi sua trajetória, por onde trilhou até chegar como sócio-fundador e gestor de uma importante gestora de investimento como a Organon?
Entre 2006 e 2008 tirei uma pausa do estágio e fiz intercâmbio. Na época surgiu na faculdade um fundo criado por alunos, a Tarpon, e me animei muito com isso. Consegui uma vaga na Tarpon logo em seguida. Com 23 anos eu me formei e fui contratado por eles para ser analista. Surgiu muito a ideia de ter meu fundo com esse foco em longo prazo. Fui para a CVM, fiz todo o processo, mas não tinha ainda as credenciais necessárias para conseguir abrir e não foi para frente. Olhando para trás, acho que foi até bom não ter dado certo, pois eu tinha muito pouca experiência e, eventualmente, poderia não ter dado bons resultados. Optei de ir para o BTG, que era um lugar muito grande, com o pensamento de ficar uns três anos e acabei ficando nove. Logo que entrei o fundo quase triplicou de tamanho e a estratégia que eu queria, que era de Small Caps, não fazia mais sentido. Passei a ser analista de empresas grandes. Dois anos depois decidi criar um veículo dentro do BTG, então em fevereiro de 2013 criei o veículo Organon. Cobria vários setores, como financeiro, educação, indústria e outros, e sempre olhava as small caps. Os primeiros anos foram super difíceis e bem desafiadores. Fizemos um movimento que acabou saindo muito errado e acabou dificultando demais nos primeiros três anos. Mas são justamente nesses anos ruins que aparecem as oportunidades. Em 2015 foquei muito em olhar empresas extremamente descontadas e comprei 1,5% do capital da Cristal Pigmentos, que representava 20% do patrimônio do fundo. Em três anos essa empresa subiu mais de 2000%, só os dividendos que recebemos no ano seguinte foi maior que o preço que a gente havia pago por ação. Os outros dois foram bônus de subscrição, que também subiram bastante, da Iochpe Maxion e da Jereissate, que é a Holding que controlava o Iguatemi. Depois desses anos muito bons, com um retorno acumulado de quase 400%, o fundo começou a ficar maior e apareceu em mim aquela vontade de fazer a transição. Porém, eu estava muito engajado no BTG e gostava muito da minha carreira lá dentro. Tomei a decisão de sair no final de 2019 e saí oficialmente em março de 2020 para começar a tocar o projeto da Organon. Trouxe o fundo do BTG para cá e começou o desafio de, não só tocar o fundo, mas de empreender também. Ao longo desses últimos dois anos fizemos um trabalho muito bom deixando a empresa bem redonda. 

Apesar da tranqüilidade de reconhecer que não era o momento certo na primeira tentativa, tomar essa decisão de fazer essa transição logo com uma pandemia estourando não te fez repensar de alguma maneira? 
É preciso ter um emocional muito forte de não ir para os extremos. É importante estar sempre na mediana entre a vaidade oca e a humildade indébita. No momento em que as coisas estão indo muito mal não se pode perder a confiança, assim como não se pode relaxar quando as coisas estiverem indo muito bem. Um exercício que geralmente faço para manter essa disciplina, quando as coisas estão indo muito bem eu começo a pensar nos momentos difíceis que tive para voltar um pouco mais para o centro. E faço o mesmo quando o momento não é bom. É uma característica importante para tentar sempre não ir no sentido da manada. 2020 foi um ano em que eu tinha parte relevante do meu patrimônio no fundo, tomei a decisão de finalmente fazer a Organon e tomar o risco do empreendedorismo e, simplesmente, acontece o caos. Perdi mais de 1/3 do meu patrimônio que estava alocado em ações, e dólar então perdi quase 50%. Foi justamente esse raciocínio emocional que me fez ficar firme. A humanidade tem sempre uma capacidade de encontrar soluções para os mais diversos problemas. Mas, sem dúvida, foram meses bastante difíceis, porém me deixaram ainda mais experiente e preparado. Ao longo do segundo semestre fizemos boas alocações, como investir na Ferbasa, e fomos nos recuperando e colhemos bons frutos, em que pese que o fundo não performou tão bem no período. Em 2021, com 100% de foco na Organon, vimos que é impressionante como dá para ir mais profundo, com uma performance muito boa. 

Estamos iniciando 2022, o que você espera desse ano para a Organon? 
Ponto de vista de realização pessoal estou em um dos melhores momentos da minha vida. Muito feliz de estar montando negócio e de ver tudo acontecendo, desde as coisas simples como aluguel do escritório, criação do logo... Está sendo muito gratificante. Eu vejo a continuidade disso. Precisamos realizar mais algumas contratações, ficamos muito felizes de entrar na XP no final de dezembro, já que é um distribuidor muito relevante no Brasil e com certeza se tornará para a Organon. Começamos num momento muito fértil para encontrar bons investimentos. 

Qual conselho você daria para quem está começando e pretende trilhar um caminho muito parecido com o seu? 
A pessoa que está entrando no mercado, o conselho que posso passar é o do emocional que já comentei anteriormente. Outra virtude importante é ter muita paciência. É claro que se deve ter o básico de saber fazer conta e interpretar números, mas o emocional é preponderante. Também se deve pensar no longo prazo, que as coisas se ajustam com o tempo. Essa visão é muito importante.