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BP Entrevista

Exclusivo: para economista-chefe do Inter (BIDI11), BC deveria encerrar ciclo de alta da Selic

Para Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter (BIDI11), o Banco Central deveria encerrar o ciclo de alta

Gabriel Rios

por Gabriel Rios

2 de agosto de 2022 6:00Atualizado em: 2 de agosto de 2022 8:06
Exclusivo: para economista-chefe do Inter (BIDI11), BC deveria encerrar ciclo de alta da Selic
Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter (BIDI11) / Foto: Divulgação

O Copom (Comitê de Política Monetária) deve elevar a Selic em 0,50 p.p. nesta quarta-feira (3), fazendo com que a taxa de juros brasileira chegue a 13,75% ao ano. Para Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter (BIDI11), no entanto, o Banco Central deveria encerrar o ciclo de alta após essa decisão. 

"Estamos chegando em um patamar bastante elevado, espero que a próxima alta seja a última e o Banco Central possa encerrar o ciclo. Já estamos num patamar suficiente para que a inflação volte para a meta no prazo relevante", disse a especialista em entrevista ao BP Money

A alta dos juros teve início logo no começo de 2021, quando ela ainda estava em 2% ao ano. Desde então, a inflação acumulada de mais de dois dígitos fez com que o Banco Central implementasse um aperto monetário mais agressivo para tentar conter a disparada dos preços.

"Nas últimas semanas vimos uma mudança de cenário com as commodities lá fora em queda, e acho que isso irá contribuir para o Banco Central encerrar o ciclo. Não vejo necessidade de continuar subindo os juros até o final do ano", completou a economista. 

Ao BP Money, Rafaela Vitória também falou sobre a decisão do Fed em elevar sua taxa de juros em 0,75 ponto percentual, uma possível recessão mundial, cenário atual da inflação no Brasil e possíveis impactos das Eleições presidenciais no país. 

Confira a entrevista na íntegra: 

O Fed confirmou a expectativa do mercado e elevou a taxa básica de juros dos EUA em 0,75 ponto percentual. Com isso, a taxa de juros dos EUA saiu do intervalo entre 1,5% e 1,75% para o intervalo entre 2,25% e 2,5% ao ano. Como você avalia mais esse aumento?
Essa alta era bem esperada. Veio em linha com a expectativa que tínhamos. É uma alta significativa. São poucos momentos na história do Fed que a gente tem uma alta desse tamanho e vem na sequência de uma outra alta também de 0,75.

O Fed, de fato, acelerou o ritmo de aperto monetário nos EUA. O principal motivador foi uma taxa de inflação maior que o esperado, principalmente pela leitura que a gente viu do CPI do mês de junho, que veio bem acima do esperado. Com isso, o Fed foi mais firme nessa decisão de elevar os juros em 0,75 p.p.

De acordo com o banco norte-americano, novos aumentos serão apropriados. É o melhor movimento a ser feito? E qual a sua projeção para esses aumentos até o fim deste ano?
Apesar da taxa já estar em 2,5%, ela ainda é baixa para o tamanho da inflação atual, e é apropriado o banco central continuar subindo. Também já era esperado que ele anunciasse novas altas. Eu acho que veio uma surpresa no comunicado, no qual ele indicou que as próximas altas podem ter um ritmo menor, apesar que deixou claro que daria uma nova alta de mesma magnitude caso precisasse.

Porém, os dados de atividade mais fracos, como o PIB, indicavam que a gente deve ver uma redução desse ritmo nas próximas reuniões. Ele indicou que espera que termine o ano próximo do que foi a projeção que os membros do Fomc fizeram em junho, que teria uma taxa entre 3,25% e 3,5%, isso indica para a gente que podemos ter uma alta de 0,50 p.p. na próxima reunião e duas de 0,25 p.p. nas outras duas reuniões que ainda terão esse ano. 

O ciclo de alta de juros atual, iniciado em março, levou a apostas de que o país acabará entrando em recessão para que a inflação seja contida, e o PMI composto de julho reforçou essa visão. Vale destacar que o país enfrenta a maior inflação em mais de 40 anos. Com base no atual cenário, estamos caminhando a passos largos para uma recessão mundial?
A gente tem um atual cenário bastante desafiador pois, ao mesmo tempo em que há sinais de desaceleração e uma possível recessão, a gente pode fazer uma leitura do PIB americano, com dois trimestres de queda, apesar de o mercado de trabalho ainda estar positivo, temos sinais de mais quedas à frente e um 2023 bem mais fraco. Por outro lado, ainda não temos sinais de desaceleração da inflação. A grande dúvida ainda existe em saber qual o tamanho da queda de atividade para que a inflação volte para a meta.

Nem os bancos centrais têm essa resposta atualmente, mas essa desaceleração que estamos acompanhando irá contribuir para que a inflação caia. Começamos a ver alguns sinais nas cotações de commodities, mas os núcleos de inflação, a inércia inflacionária, inflação de serviços ainda não cedeu. Teremos que aguardar ainda. O impacto da política monetária tem uma defasagem, então apesar de termos tido algumas altas significativas, elas começaram agora em março, e muito disso só irá impactar daqui a seis meses.

É preciso aguardar para entender o tamanho do aperto monetário e como isso impactará a atividade nos próximos semestres. Temos, infelizmente, bastante incerteza, mas um cenário de recessão é bastante provável nesse momento. 

Conversando com outros especialistas, eles destacaram que o diferencial de juros fortalece o dólar e deprecia o real, convertendo em uma maior inflação no Brasil. O que o Banco Central brasileiro precisa fazer para evitar essa maior inflação no país?
Vou, de certa maneira, discordar. Acho que temos um diferencial de juros já bastante elevado porque o BC daqui já fez altas muito significativas. Agora o Fed está subindo mais e em um ritmo maior do que aqui, mas começamos a subir em março do ano passado.

Se pegarmos todas as altas acumuladas até agora e olharmos as taxas de mercados que temos hoje, dos títulos mais longos, temos um diferencial de juros elevado que está em um patamar bastante elevado para padrão histórico e para padrão de crise, então eu diria que temos um juro elevado suficiente, que não deve causar novas depreciações do real.

A depreciação que a gente viu recente segue o cenário global. Sim, o juros maior fortalece o dólar em relação ao real, mas quando a gente compara com outras moedas, podemos perceber que, no ano, o real está relativamente melhor. Acho que a Selic já está num patamar bastante elevado, então não esperamos uma depreciação cambial adicional, não pelo lado dos juros. Obviamente que o Brasil tem outros riscos que precisam ser monitorados, mas o lado dos juros e da nossa balança comercial forte deve manter o real oscilando nessa faixa entre R$ 5 e R$ 5,40. 

Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada em junho, a Selic subiu para 13,25%, tendo sido o décimo primeiro aumento consecutivo, com uma forte tendência em continuar subindo até o final do ano. Qual o impacto positivo e o negativo de uma taxa básica de juros tão alta?
O impacto positivo é o de reduzir inflação. Ela terá esse efeito em controlar a inflação. Estamos chegando em um patamar bastante elevado, espero que a próxima alta seja a última e o Banco Central possa encerrar o ciclo. Já estamos num patamar suficiente para que a inflação volte para a meta no prazo relevante.

De novo, a política monetária tem defasagem, isso fará efeito só lá na frente, entre 2023 e 2024. Estamos vendo uma defasagem no Brasil até maior, toda alta de juros que foi dada no primeiro semestre acabou não surtindo efeito por conta dos choques que vimos do efeito do petróleo e de uma demanda reprimida dos serviços que acabou surpreendendo com uma atividade mais forte, mas acho que daqui para frente essa taxa irá causar um impacto negativo na demanda que, por sua vez, contribui por uma inflação menor. Esperamos um PIB mais fraco nos próximos trimestres, mas não nesse agora. Em 2023 a gente tende a ver uma economia bem mais fraca no Brasil. 

Então, na sua avaliação, deveria haver essa interrupção do ciclo de altas da Selic?
Nas últimas semanas vimos uma mudança de cenário com as commodities lá fora em queda, e acho que isso irá contribuir para o Banco Central encerrar o ciclo. Não vejo necessidade de continuar subindo os juros até o final do ano. 

É sabido que o movimento de aumento da taxa de juros visa conter a inflação. Com todo esse histórico e uma projeção de mais subida, o Brasil vive um momento delicado?
Sempre que temos um processo de aperto monetário, de elevação de juros, ele é um momento mais difícil para a economia. Juros maiores significa crédito mais caro, mais escasso, dificulta o investimento das empresas, então, sim, temos um momento desafiador da economia, enquanto a inflação não cai. Os juros já subiram tanto, a gente deve passar alguns meses de mais incerteza. 

Estamos em ano eleitoral, com uma forte polarização entre dois candidatos. Como as Eleições podem afetar a inflação brasileira e, consequentemente, os juros do país?
A gente vê algumas políticas do governo, pelo lado fiscal, de expansão, com redução de impostos e aumentos de transferências, isso tende a estimular a demanda e causar mais pressão inflacionária. Então, um governo com algumas políticas de expansão fiscal podem atrapalhar um pouco do banco central de controlar a inflação.

As políticas são de tamanho moderado, chegando em um superavit primário de R$ 50 bilhões no primeiro semestre, então dá um certo colchão para o governo, apesar da expansão fiscal. O governo precisa ter mais cautela nesses programas para que, nesse momento de conter inflação, não coloque mais lenha na fogueira.