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Dinheiro

Analistas preveem alta de até 2 pontos para Selic

LUCAS BOMBANA | Folhapressem 27 de outubro de 2021 8:25
  • O ex-secretário do Tesouro Nacional, afirmou que, após os eventos da semana passada, a expectativa do mercado está sendo deteriorada;
  • O esperado é que a Selic vá para 8,25% ao ano;
  • Para José Márcio Camargo, da Genial Investimentos, o BC deveria aplicar uma alta de 3 pontos.

A sinalização do governo de que irá furar o teto de gastos para financiar o pagamento do Auxílio Brasil, o novo Bolsa Família, assim como a alta da inflação, devem forçar o Copom (Comitê de Política Monetária) do BC (Banco Central) a elevar os juros para níveis bem acima dos previstos inicialmente pelo mercado.

Em evento virtual da Anbima nesta terça-feira (26), os economistas Carlos Kawall, da Asa Investments, e Rodrigo Azevedo, da Ibiuna, disseram prever uma Selic próxima de 12% ao ano no início de 2022.

Kawall, ex-secretário do Tesouro Nacional, afirmou que, após os eventos da semana passada em Brasília, que deterioraram de maneira aguda a expectativa do mercado para a política fiscal, passou a projetar uma alta de 2 pontos percentuais na taxa Selic no encontro do Copom que se encerra nesta quarta-feira (27).

"Os juros não serão mais no nível de consenso, nem no nível em que situamos nossa previsão na semana passada, em 10,5%. Provavelmente vamos mudar para um nível próximo de 12%, e já vemos uma alta de 200 bases-points [2 pontos percentuais] na reunião", disse o economista da Asa Investments.

Se confirmado, será o maior aumento na taxa básica de juros desde 2002, o que levaria a Selic para 8,25% ao ano.

A mediana do levantamento da Bloomberg com analistas aponta alta de 1,85 ponto percentual.

No relatório Focus do Banco Central, a mediana da previsão dos economistas consultados pelo BC aponta para a taxa Selic em 8,75% no fim deste ano, chegando a 9,5% em dezembro do ano que vem.

Ex-diretor do BC, Azevedo disse que trabalha com um cenário-base com a inflação ao redor de 10% neste ano, e próxima de 5% em 2022, com a taxa Selic oscilando dentro de uma banda entre 10% e 12% ao longo dos próximos meses.

O sócio da Ibiuna afirmou que o aumento da incerteza sobre as contas públicas reduzem a eficácia da política monetária, forçando o BC a ter de levar os juros para a casa dos dois dígitos.

"O choque da semana passada tornou ainda mais difícil a missão que já estava se mostrando complicada, de o BC trazer a inflação para a meta em 2022 e 2023", comentou.

Azevedo disse que, até o início da semana passada, a aposta majoritária do mercado era de uma alta de 1 ponto percentual na Selic, que passou a migrar para 1,5 p.p. com o aumento do ruído político; e que, após o IPCA-15 divulgado na manhã desta terça, já não se descarta que seja ainda maior.

O indicador subiu 1,20% em outubro, enquanto o mercado esperava alta de 1%. Em 12 meses, o IPCA-15 acumula alta de 10,34%, segundo o IBGE.

"O nível de inflação e a projeção de crescimento para 2022 é [um cenário] muito semelhante ao que vivemos em 2015, quando abandonamos a austeridade fiscal", afirmou Kawall.

Para José Márcio Camargo, da Genial Investimentos, o BC deveria aplicar uma alta de 3 pontos, o que levaria a Selic a 9,25%, forte o suficiente para compensar os choques que estão ocorrendo nos preços dos ativos e um primeiro passo para manter a credibilidade da política monetária.

Segundo a Genial, a reação dos investidores ao rompimento do teto de gastos está sendo extremamente negativa, provocando desvalorização cambial, aumento das taxas de juros e queda dos preços das ações.

Nesta terça, a Bolsa brasileira caiu 2,11%, para a 106.419 pontos. O dólar subiu 0,34%, a R$ 5,5730.

"Do ponto de vista dos investidores, o problema não é quanto foi aumentado o teto, mas a credibilidade. Afinal, se o governo está disposto a aprovar uma PEC que desloca o teto para cima com o objetivo de financiar um aumento de gastos, porque não irá fazer isto novamente no futuro?", escreveu Camargo, em relatório.

"É fundamental que o Banco Central atue no sentido de mostrar aos investidores que o regime de metas para a inflação continua efetivo".

O cenário também afeta os juros futuros. A taxa DI (Depósitos Interfinanceiros) para janeiro de 2023, que na abertura do mercado nesta terça estava em 11,13% ao ano, avançou 0,58 ponto percentual durante o dia e fechou em 11,71%. Há uma semana, era de 9,35%.

A alta é maior que os picos registrados na semana passada- entre 0,5 e 0,6 p.p.- , quando a decisão do governo de driblar o teto de gastos ampliou a percepção de investidores sobre o risco do país.

Segundo o economista da Asa Investments, índices monitorados internamente apontaram que o estresse gerado nos últimos dias no país aproximaram os preços dos ativos para os piores momentos do governo da ex-presidente Dilma Rousseff.

"Os índices de condições financeiras estão em terreno contracionista", disse o especialista, que, após as declarações recentes do governo sobre o teto de gastos, revisou de 1,5% para 0,4% sua projeção para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) no ano que vem. "E já não é descartada a recessão em 2022", afirmou Kawall.

O economista da Asa Investments lembrou ainda que o cenário global tem se tornado mais desafiador, com o provável início da redução de estímulos e alta dos juros nos países desenvolvidos. "É um momento em que a gente não deveria estar entrando em uma aventura que é a destruição do pilar fiscal", disse Kawall.

Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander e secretária do Tesouro quando a regra do teto de gastos foi implementada, disse ter acompanhado as recentes sinalizações do governo sobre a política fiscal com muita preocupação.

A especialista pontuou que o teto de gastos foi criado para ajudar a tirar o país da recessão no biênio 2015 e 2016, e a intenção do governo de desrespeitar a regra, disse Vescovi, pode fazer a economia voltar para um momento parecido com aquele de anos atrás.

Segundo a economista, alternativas poderiam ser encontradas para auxiliar os mais vulneráveis, mas sem abandonar a responsabilidade fiscal.

"Poderia encurtar o valor das emendas parlamentares, destinadas a algo não tão prioritário neste momento como atender os mais vulneráveis, até destinar parte das emendas ao programa social, por quê não?", questionou a especialista.

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Colaboraram Clayton Castelani e Eduardo Cucolo, de São Paulo

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