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Greenwashing, investimentos e RH

Ronald Bozza

por Ronald Bozza

23 de junho de 2022 14:40Atualizado em: 20 de junho de 2022 14:41
Greenwashing, investimentos e RH

Recentemente, a BlackRock, gestora de US$ 10 trilhões, deu o recado: a prática de greenwashing não será tolerada. A instituição declarou em relatório, que a busca é por focar em propostas que tenham maior transparência nas informações que demonstrem os riscos e oportunidades aos quais está exposta no longo prazo. Esta deveria ser uma postura padrão entre as empresas, principalmente as companhias abertas, mas, na prática, a realidade está muito longe.
 
Levantamento feito pela BR Rating em parceria com a Grant Thornton, concluiu que apenas 44% das empresas brasileiras de capital aberto divulgam o Relatório Anual de Sustentabilidade. Desse total, apenas 31% apresentam os temas materiais e, desse percentual, 8% informam as metas relacionadas ao tema. Pior, considerando todos os relatórios divulgados, somente 8% passam por auditoria ou revisão de alguma entidade independente.

Intitulada ESG on Board - Divulgação de informações ESG das Empresas de Capital Aberto – O que o mercado está reportando?, a pesquisa não teve como objetivo avaliar o comprometimento das empresas com as práticas ESG em si, e sim saber qual o percentual realmente faz a divulgação anual para o mercado e qual o grau de detalhamento das informações. 

Se apenas 44% divulgam é porque 56%, a maioria, não divulgam. Então, temos que mais da metade não é devidamente transparente em relação ao tema ou não tem política de gestão ESG posta em prática. Mas mesmo no caso das companhias que divulgam, elas o fazem de uma maneira que gera questionamentos.

Por exemplo, chama a atenção o fato de que equidade de gênero é a meta mais citada nos relatórios publicados, com 22%, enquanto temas como uso eficiente de energia, gestão de riscos e saúde e segurança no trabalho são metas citadas em apenas 3% dos documentos.
 
Fazendo a leitura do resultado pelo ângulo inverso, temos que 97% podem considerar energia, riscos e segurança no trabalho como prioridades, mas não apresentam metas a serem atingidas nestes quesitos. Sem um objetivo claro sobre onde se quer chegar, as ações em prol destes quesitos se mostram mais discurso que prática para os stakeholders.
 
Tais incoerências provocam preocupações e demonstram a necessidade de as empresas se autoexaminarem de forma crítica, principalmente quando se trata de metas. Uma das tendências que estamos vendo no mercado norte-americano é a inclusão de métricas ESG na definição da remuneração dos executivos. Neste sentido, a adoção da meta precisa ser feita somente após uma consideração cuidadosa do benefício de longo prazo para a estratégia corporativa, sempre com total transparência.

Não é porque algo está na moda que a empresa precisa seguir. É preciso que a meta faça sentido na sua estratégia de forma a evitar que vire apenas uma estratégia de marketing. Na prática, empresas que se comportam assim, apenas exibem o discurso correto, ao se declararem ambientalmente responsáveis, sustentáveis, mas isso não passa de aparência. É um ESG fake, pois nada tem de sustentável no longo prazo.

Para observar se se está no caminho correto, a primeira pergunta é: meu discurso corresponde à realidade? Caso a resposta seja talvez ou mais ou menos, a companhia está praticando greenwashing, termo que pode ser traduzido como “lavagem verde” ou até “maquiagem verde”. Na prática, os gestores têm o discurso correto, ao se declararem ambientalmente responsáveis, sustentáveis, mas isso não passa de aparência, pois nada tem de sustentável no longo prazo.
Um exemplo é o termo diversidade. Na sociedade existem grupos que trabalham pela inclusão de minorias no quadro de funcionários das empresas em geral, incluindo cargos de gestão. E para se mostrarem alinhadas a esses anseios algumas companhias podem incluir em seus relatórios metas fictícias somente para agradar o público-alvo. Mas isso não significa que elas verdadeiramente se esforcem para atingir o objetivo traçado. No dia a dia, vemos a diversidade como um discurso que tem ficado também só no papel, como demonstra outro levantamento da BR Rating, feito em 2021. Os dados demonstram que apenas 3,5% das empresas brasileiras têm mulheres atuando como CEOs.

Embora a promoção da diversidade e inclusão por meio da ação corporativa seja, sem dúvida, um bem social, as empresas não devem tratá-las como um complemento. Qualquer métrica incorporada deve ser usada para impulsionar a estratégia corporativa e não como discurso. Criar valor e credibilidade de longo prazo requer uma área de Recursos Humanos focada no ESG (principalmente no “S”) e isso vai desde a definição da remuneração dos gestores a práticas que envolvem o incentivo de todos os níveis com temas como o DEI – Diversidade, Equidade e Inclusão.

Não é se tornar ativista em excesso, mas sim perceber que cada ação impacta também o modelo de negócios e o desempenho financeiro das empresas no longo prazo. Assim, voltando à questão dos Relatórios de Sustentabilidade, não publicá-los ou divulgá-los sem preocupação com a credibilidade, pode se tornar uma pedra no sapato na hora em que houver interesse em receber investimentos de gestoras como a Black Rock. 
 
* Ronald Bozza é sócio da BR Rating e da Bozza Soluções Estratégicas em Recursos Humanos, membro independente do Comitê de Pessoas e ESG e da Comissão de Pessoas do IBGC.
 
 

Ronald Bozza

Ronald Bozza

Sócio da BR Rating e da Bozza Soluções Estratégicas em RH