Privacidade e cookies: Utilizamos cookies no nosso website para melhorar o desempenho e a sua experiencia como utilizados.Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso. Visite nossa Política de Cookies para saber mais.
Ícone do aplicativo na loja

BP Money

Grátis na App Store

Abrir

João Dannemann

Jogadores da NBA que ensinam como NÃO fazer negócios

João Dannemannem 18 de agosto de 2021 14:00

Você pode até não entender de basquete ou acompanhar a NBA, mas no final deste texto tenho certeza que concordará que os exemplos trazidos aqui não devem ser seguidos ao fechar um acordo, seja lá qual for sua área. Para compreender um pouco melhor, é necessário saber como funcionam os contratos e transações na liga.

A NBA, como organização, não gosta muito do conceito 'jogador-mercadoria' como os brasileiros estão acostumados, graças ao mundo do futebol. Se você tem uma franquia de basquete e quer contar com os serviços de um atleta, você não pode comprá-lo ou pegá-lo emprestado. De duas uma: ou você sugere uma troca, com jogadores seus ou outros itens, que precisa envolver salários equilibrados de ambos os lados para não existir um desbalanço financeiro; ou simplesmente espere o contrato desse jogador com seu time atual acabar, para ele se tornar um agente-livre (sem contrato) e assim te dar a chance de oferecer uma proposta. Aos fãs de futebol, exatamente o que aconteceu com Lionel Messi ao ir para o Paris Saint-Germain, de graça. 

Dito isso, existem regras contratuais na liga, como por exemplo a janela de agências-livres. As franquias só podem oferecer acordos para os jogadores sem contrato dentro desse período ou correm o risco de sofrer multas severas, de suspensões até US$ 10 milhões, dependendo dos casos. A janela de 2021 já está aberta e, no geral, tem sido muito interessante até aqui. Somando todas as extensões contratuais e novos acordos, já são mais de US$ 3,9 bilhões em novos salários para jogadores, graças a acordos multimilionários como os de Stephen Curry com o Golden State Warriors (US$ 215 milhões por quatro anos) e Luka Doncic com o Dallas Mavericks (US$ 207 milhões por cinco anos).

Porém, também vimos alguns exemplos grotescos de negociações, onde jogadores (e seus agentes, claros) mostraram total desconhecimento de mercado e valores. Confira e aprenda com esses caras abaixo a como NÃO negociar:

- Dennis Schröder

Em 2019-20, o armador alemão fez a melhor temporada da sua carreira como sexto-homem no Oklahoma City Thunder e recebia salário de US$ 15,5 milhões por ano, valor acima da média da NBA, que é de cerca de US$ 8 milhões. Ele saiu de Oklahoma e se juntou ao badalado e então campeão Los Angeles Lakers, para ser armador titular, com contrato de US$ 16 milhões por um ano, o que significava que ele seria agente-livre em 2021. 

Com as lesões das principais estrelas da equipe, LeBron James e Anthony Davis, na última temporada, Schröder assumiu um papel de líder na equipe angelina e viu sua produção aumentar ao longo do ano. Por isso, os Lakers ofereceram uma extensão de contrato para ele, de US$ 33 milhões por dois anos. O alemão recusou e seguiu jogando. Pouco depois, a franquia insistiu e ofereceu nova extensão para o atleta, dessa vez de US$ 84 milhões por quatro anos. Ele receberia 21 milhões por temporada mas, novamente, não aceitou. 

Muita gente não entendeu a decisão de Schröder. Quem em sã consciência recusaria tanto dinheiro, em uma franquia tão competitiva e que joga em uma cidade tão atrativa? O alemão disse em entrevista que testaria a agência-livre pois acreditava que conseguiria um contrato de cerca de US$ 100 milhões. Mas ele não contava com um fracasso coletivo e individual na parte mais importante da temporada: os playoffs. As más atuações fizeram o valor de Schröder despencar mas, com duas respostas negativas frente à propostas dos Lakers, dificilmente ele receberia uma terceira.

Dito e feito. A franquia não quis mais saber do alemão, que se tornou agente-livre em 2021. Ele aguardou mas não recebeu muita atenção dos times que precisavam de armadores. O Boston Celtics, maior rival dos Lakers, então ofereceu para ele contrato de míseros US$ 5,9 milhões por apenas um ano. Schröder enrolou e disse que queria no mínimo US$ 9,5 milhões, resolvendo esperar alguma equipe que oferecesse a quantia desejada. Não aconteceu. Ele se contentou com os US$ 5,9 milhões em Boston, após ter recusado 84 milhões em Los Angeles. 

Para completar o desastre, Schröder viu o outro armador dos Celtics, Marcus Smart, estender seu contrato para um novo de US$ 77 milhões por quatro anos. Ou seja, sem sombra de dúvidas, ele voltará ao papel de sexto-homem, perdendo a titularidade que conquistou no último ano. 

- Victor Oladipo

Mais um caso de extremo insucesso nas negociações foi o de Victor Oladipo. Para entender melhor, precisamos novamente voltar para a temporada 2019-20. Ele era jogador do Indiana Pacers e ídolo por lá. Infelizmente, sofreu muito com lesões no seu tempo na franquia mas, ainda assim, quando esteve saudável mostrou que era diferenciado. Seu contrato de US$ 84 milhões com os Pacers estava prestes a acabar, porém a franquia acreditava no futuro com Oladipo e ofereceu uma extensão de US$ 113 milhões por mais quatro anos, recusada pelo jogador. Mal sabia ele...

É preciso dizer antes de explicar o resto da história: caso aceitasse essa extensão com os Pacers, Oladipo ainda teria esse contrato multimilionário em vigor. Quando um jogador é trocado, seu contrato vai junto e não pode ser modificado pela nova franquia. E foi o que aconteceu. Na última temporada, ele foi uma das moedas de troca envolvidas na negociação que levou James Harden ao Brooklyn Nets. Oladipo foi parar no Houston Rockets, time em franca reconstrução. Antes de chegar, ele já tinha anunciado que não queria ficar. Mesmo assim, os Rockets resolveram dar uma chance ao potencial do atleta, oferencendo extensão de US$ 45 milhões por dois anos. 

Oladipo recusou pois acreditava que, se mantendo saudável, conseguiria um contrato maior na agência-livre. Como pedido, ele foi trocado novamente, do Houston Rockets para o Miami Heat, onde sofreu mais lesões e mal jogou. Por isso, seu valor de mercado despencou vertiginosamente. Pouquíssimos times ofereceram propostas para Oladipo, que se contentou com um salário mínimo de veterano no próprio Heat: US$ 2,6 milhões em um ano. Em duas temporadas, ele viu seu salário cair de 84 para 2,6 milhões de dólares, tendo recusado extensões de 113 e 45 milhões no caminho. Duro de se ver. 

- Spencer Dinwiddie

Essa última é apenas um adendo ao texto, já que não foi uma negociação ruim. Longe disso, aliás. O jogador conseguiu ter seu salário aumentado e com toda certeza vai ganhar mais minutos em quadra na sua nova franquia. Resolvi contar essa história por um fator muito curioso que se encontra no contrato de Spencer Dinwiddie com o Washington Wizards.

É verdade, ele falou em múltiplas ocasiões que só fecharia contratos de US$ 100 milhões ou mais na agência-livre e se contentou com um de US$ 54 milhões. Mas isso já foi um crescimento tremendo para um atleta que recebera US$ 27 milhões somando seus sete anos de carreira na NBA até aqui. 

O detalhe é: Dinwiddie concordou com alguns bônus no contrato dele com os Wizards, caso atinja metas pré-estabelecidas. A mais bizarra delas é a de probabilidade de título. Se o jogador conseguir, por algum milagre da natureza, carregar o time dos Wizards ao troféu da NBA, ele receberá bônus de UM dólar. Isso mesmo, não é um mil ou milhão, mas um dólar. Brincando, ele ainda falou que gostaria de ser pago em cem moedas de um centavo. 

Considere má negociação ou não, os bônus no contrato dele foram calculados de acordo com a probabilidade de acontecer, com vantagem para o jogador. Quanto mais provável, mais ele receberá. 

  • Caso consiga jogar 50 partidas na próxima temporada, bônus de US$ 1,5 milhão;
  • Caso carregue os Wizards para as Finais da Conferência Leste, bônus de US$ 571 mil;
  • Caso carregue os Wizards para as Finais da NBA, bônus de US$ 400 mil;
  • Caso carregue os Wizards para o título da NBA, bônus de US$ 1.

Tirando o curioso caso de Spencer Dinwiddie em Washington, Schröder e Oladipo ensinam valiosas lições de negócios. Um: sempre saiba o valor do seu produto, considerando tudo que pode influenciar nisso, positiva ou negativamente; dois: nunca recuse uma proposta irrecusável; três: se, mesmo depois de ignorar o item dois, você receber uma nova proposta, não a recuse, mesmo que o valor seja mais baixo (isso indica que seu produto tende a desvalorizar ainda mais); quatro: não se contente com pouco, mas é melhor do que nada.

Claro, todas as informações e regras trazidas são lúdicas, sempre bom lembrar. 

Relacionadas