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Gabriel Rios

Clube-empresa: investiria no seu time do coração?

Gabriel Riosem 26 de agosto de 2021 13:00

Sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro no último dia 9 de agosto, a lei "clube-empresa" cria regras para que times de futebol se transformem em empresas. A nova lei cria a figura da Sociedade Anônima de Futebol (SAF) e prevê estímulos para que os clubes deixem de ser entidades sem fins lucrativos e adotem o novo modelo previsto para as SAFs.

Um exemplo de estímulo será permitir que essa Sociedade Anônima de Futebol possa emitir debêntures para se financiar. Com o clube se convertendo ao novo modelo, eles poderão lançar ações em bolsa de valores e atrair fundos de investimentos.

De maneira simples, debênture seria algo como emprestar dinheiro a uma empresa. A empresa assume uma dívida com o investidor que passa a ser credor da empresa. Apenas SA abertas podem emitir esse tipo de papel. A debênture pode ser emitida com diversos indexadores e não tem prazo máximo, porém tem o prazo mínimo de 1 ano. Além disso, quando receber de volta o valor investido acrescido dos juros acordados, será cobrado do investidor uma taxa de imposto de renda, apenas sobre o ganho. 

Nesse caso o risco seria receber um “calote” da empresa, no caso o clube. Neste cenário, cada empresa tem um “rating”, que nada mais é do que uma avaliação de o quanto confiável é a empresa emissora da debênture. Mas então, conhecendo seu time e como a sua diretoria tem operado, você acha que teria um rating alto?

E você, que assim como eu, gostaria de ter direito ao voto em assembléias para aprovar decisões importantes, o novo modelo pode te oferecer isso. Se a ação for ordinária, com final 3, você tem direito a voto, pois o tamanho do seu voto é o proporcional a quantidade de ações que você têm. Caso seja com final 4, você não tem direito, mas tem preferência em receber dividendos, são chamadas de ação preferencial. 

O objetivo é profissionalizar o futebol brasileiro. Os dirigentes se tornariam uma espécie de CEO, com uma gestão transparente, meritocrática e profissional, seguindo padrões rígidos de gestão, compliance e ESG. Conhecendo a cultura do futebol brasileiro, é até meio utópico pensar que isso poderia acontecer, né?

EXEMPLOS EUROPEUS
Claro que, para variar, o modelo já existe no futebol europeu há um tempo, e grandes clubes estão listados na Bolsa. O maior clube de futebol negociado é o Manchester United. As ações dos ingleses estão disponíveis na NYSE, que é a Bolsa de Valores de Nova York, com o símbolo NYSE: MANU.

Os Red Devils, como é conhecido, chegou a representar 55% de todo o mercado acionário de clubes de futebol no mundo em 2005, que tinha como foco expandir sua marca globalmente, gerando receitas comerciais globais robustas e controle de custos extremamente rígidos, garantindo sempre retorno para os acionistas.

De acordo com o Investing.com, as ações do MANU tocaram a máxima recorde de US$ 27,70 em 2018. No início de março, o Manchester United divulgou seus resultados do 2º tri fiscal. A receita foi de £172,8 milhões (US$240,9 milhões), uma alta de 2,6% YoY. O lucro operacional foi de £48,5 milhões (ou US$67,6 milhões), uma alta de 32,9% YoY.

Entretanto, os desempenhos dos clubes não chegam a ser um sucesso, já que a volatilidade é muito alta. O motivo? Os resultados dentro de campo, além de contratações e salários astronômicos, acabam influenciando, seja de maneira positiva ou negativa. 

Um grande exemplo é a Juventus, que viram as ações derreterem em 2006, quando foi rebaixada para a segunda divisão italiana após escândalo de manipulação de resultados. Alguns bons anos depois, o gigante italiano viu os papéis atingirem o ápice após a contratação de Cristiano Ronaldo, um dos principais atletas do século. 

Roma-ITA, Borussia Dortmund-ALE, Ajax-HOL, Fenerbahce e Galatasaray, ambos da Turquia, também estão listados. 

DESAFIOS
Com o futebol brasileiro sendo tão imediatista, será possível conseguir conciliar a maximização dos lucros com a expansão da marca no mercado e os resultados dentro de campo com títulos? 

Um importante passo para a profissionalização é investir em infraestrutura, como construir centros de treinamento. 

Outro desafio é conseguir lucrar com altos investimentos. Um clube precisará de resultados esportivos, ou seja títulos, correto? Para isso, investirá pesado em um grande plantel. Rodeado dos principais jogadores do mundo, esse clube conquistaria seus objetivos. Porém, dificilmente conseguiria lucro devido ao alto investimento. 

Pior, e se der errado? Elenco recheado de grandes jogadores não deu certo e ficou sem título na temporada. O que ocasionaria? Arcaria com prejuízos maiores. 

CRUZEIRO CONTRATA XP
Atolado em dívidas, o Cruzeiro já se prepara para abrir capital. Os mineiros contrataram a XP Investimentos para buscar um investidor. A ideia é receber um aporte para levantar o clube. 

De acordo com o Valor Ecônomico, a dívida do clube é de quase R$ 900 milhões. O Cruzeiro encerrou 2020 com uma receita de R$ 118,8 milhões, recuo de 57,7% sobre 2019. A retração expressiva se deve ao rebaixamento da equipe para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro, que impactou drasticamente em cotas de televisão - de R$ 102,5 milhões para R$ 40,3 milhões.

Vale destacar que, por ser um dos principais clubes do Brasil, o Cruzeiro recebia uma quantia considerável de cota televisiva. Porém, desde o ano passado, a Rede Globo, dona dos direitos televisivos da Série B, mudou a regra e igualou o pagamento, influenciando negativamente nas contas da Raposa. 

A XP ficará encarregada de procurar investidores que possam apostar na nova empresa do Cruzeiro. Será criado um CNPJ “limpo”, que separa o patrimônio e a dívida do clube da nova empresa. O Cruzeiro ainda está em processo de criação dessa nova empresa, que já passou pela aprovação do Conselho. 

CEO do Cruzeiro, Paulo Assis contou que a direção do clube contratou a auditoria EY e a Alvarez & Marsal também para ajudá-los na reestruturação.

DARÁ CERTO?
Ainda é difícil dizer. Levando em consideração à atual situação do Cruzeiro, acho que vale a tentativa. Afinal, eles não têm nada a perder, já que, aparentemente, já perderam tudo.

Conversei com o sócio da BP Investimentos, Marcelo Chamusca, e questionei se dará certo o modelo no país. 

“Acredito que no curto prazo seja muito difícil para o futebol brasileiro. Eles terão muito trabalho para se estruturar como clube-empresa, principalmente pela questão da transparência nas contas”, disse o assessor.

“Alguns times brasileiros iniciaram essa ‘estruturação’, a exemplo do Athletico-PR, mas no mercado financeiro é necessário uma maior transparência, ou seja, informações dos seus dados, além de uma rigorosa fiscalização de órgãos reguladores”, completou Chamusca.

Ainda de acordo com ele, o principal esporte do Brasil terá um “enorme trabalho pela frente”. “Que esta lei seja o início de uma profissionalização financeira dos times”, concluiu.

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